quinta-feira, 10 de maio de 2012

Deixemos o bolo
na mesa de jantar
A família suburbana
não irá a nenhum lugar
 nem o bolo...

Não dividem o bolo
com as formigas ou
roedor hospede

 Não é egoismo, não,
caro leitor bem nutrido,
É que, na falta de pão,
não há homem, só instinto

quarta-feira, 9 de maio de 2012

No terreno baldio,
por cima dos
fios eletrícos,
das velhas capelas....

Estavam lá,
rápidas e mudas,
as crianças descalsas
que empinam pipas
rasgadas e coloridas

Envelhecem depois
e pensam que tolice
era pegar os sonhos
ou Deus
tentando tocar
em fugazes nuvens
de algodão divino

Não se lembram mais que
os murmuros do vento
eram a voz do Verbo
e o céu, as vezes, tinha
a condolência de
 mostrar o futuro
no pôr-do-sol


domingo, 6 de maio de 2012

Diante da gélida e estática
sala de operações
Ruidosas maquinas abrem corpos
, milimetricamente precisos e
indiferentes.

Interrogam se acham o
mencionado orgão vascular
humano a quem eles faziam
tantos pífios escritos e
mundos paralelos.






segunda-feira, 30 de abril de 2012

Não se conheçe
o verdadeiro valor
da ingenuidade

Tanto é o pífio
defeito de um brasileiro
como uma doce desculpa
para a impunidade

(Quem sabe se aquela velhina
ao volante do automóvel
a disparar o alarme
é uma simples leiga
a assuntos eletrônicos
ou uma indiscreta ladra
de carros?)

sábado, 28 de abril de 2012

Alguns sonetos têm
o indistiguível dom
de brotarem do chão
casuais e belos
Outros precisam
que sejam arrancados
e desenterrados do solo
para depois serem limpos
e lidos

A perspicaz ideia
da invenção da mentira
surgiu do pobre coitado
cujas ovelhas perdera
na feira (ou não)
Mal sabia ele
que acabava de criar
a primeira arma de alienação em massa

quarta-feira, 25 de abril de 2012

o menino inglês

Repousava sossegado na cama ao pé da janela; pensava em que iria fazer pro jantar ou olhava se a mercearia do fim da esquina já abrira. Era garçom de um café antigo na pacata Durham, onde as pequenas casas de subúrbio se entrecruzavam e compunham a paisagem. A tranquila cidade em que morava desde que saí da métropole. Recordava que acabara o terceiro grau quando percebi que nunca havia pisado em solo  fora daquele redemoinho de pessoas e edificios; estava sufocado e aprisionado em meu próprio berço. Meu universo, incrivelmente, existia em apenas alguns quarteirões em que passei a vida rotineira que meu pai viveu e o pai dele também. No mesmo dia dessa recordação, peguei o bendito ônibus que conduziria o resto de minha vida e logo chegando, tratei de arrumar um quarto decente, pequeno o bastante para me comportar, grande o bastante para aguentar minha fome pelo mundo, minha única razão e propósito. À tarde, perambulava pela cidade atordoado pelo o diferente, o novo e o simples. Conversava com pessoas anônimas; não resistia em ouvir suas vozes que soavam para mim em outra língua e cantavam as belezas desse novo mundo. Entrando em um velho prédio, acenei para o atendente. Um grande e alto escocês de longa barba cinza e ombros largos veio ao meu encontro. Seu sotaque lhe diferenciava dos demais; era um tanto excluído por causa dele. Notava-se agora a quietude e a doce solidão que aquele lugar emanava. Roguei a ele algum simples ofício que pagasse as contas e sossegasse minha alma. Ele ,com um vago sorriso, apenas disse-me que estava no lugar certo e , minutos depois, fazia parte de lá como o velho escocês. O sabor daquela pequena conquista ainda percorre na minha boca com o mesmo júbilo daquele singular dia, meu primeiro. Naquela noite, sonhei que era uma criança nua em meio à savana.No quieto entardecer da natureza, sentei e encarei o leão a minha frente; o animal , em seguida, fez o mesmo. A noite trouxe a grande chuva à savana mas o tempo e espaço pareciam ser simples coadjuvantes de nós. Vi nos ternos olhos do leão a minha imagem refletida envelhecendo. Não tardei em perceber que eu era o leão e o que vira era o futuro em meus olhos. Olhei para cima e um pingo d'água foi o bastante para acordar-me.
Tenho que ligar pro vizinho do andar de cima; seu varal goteja em minha janela todas as tardes em que fecho os olhos